O último cabalista de Lisboa

Numa reconstituição histórica irrepreensível, Richard Zimler transporta-nos ao início do século XVI para dar conta de um acontecimento negro da nossa história, o massacre de cerca de 2000 cristãos-novos, perseguidos pelas ruas de Lisboa, despojados de todos os bens e dignidade, torturados com requintes de malvadez, queimados em Praça Pública. Como acontece frequentemente em tais casos, foram a ignorância e a superstição que presidiram à matança, neste caso com os frades como seu instrumento, ao acusarem as vítimas de serem responsáveis pela peste e pela fome.

É neste caos que se move a personagem principal, um jovem judeu que nos dá a sua perspetiva pessoal dos acontecimentos, ao mesmo tempo que procura localizar um valioso manuscrito desaparecido e desvendar a morte do tio, famoso cabalista que encontra assassinado na cave da sua casa pouco antes da tragédia que irá ceifar tantas vidas. Uma leitura recomendada não apenas pela importância dos factos que retrata, mas sobretudo pelo simples prazer da leitura proporcionada por um argumento inteligente e uma escrita agradável.

“Como descrever a primeira noite da Páscoa? As palavras e os rostos tranquilos? A alegria estonteante? A tristeza pelos que nos tinham deixado? Ocupámos os nossos lugares unidos pela aura comum dor preparativos. Meu tio, como sempre, era o nosso guia no ritual. Mesmo sendo a Páscoa uma festa que tem o centro na recordação, uma rememoração da história de como Deus retirou os judeus da escravidão, possui também uma essência secreta. No interior do corpo da Tora, encolhida como uma fénix no ovo, esconde-se a história da jornada espiritual que toos nós poemos fazer, da escravidão para a bem aventurança. A Haggada da Páscoa é um sino de ouro que ao repicar nos diz: «Lembra-te que a Terra Prometida está dentro de ti!»”

cabalista

Título: O último cabalista de Lisboa

Autor: Richard Zimler

Editora: Leya

Ano: 2010

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