Almas Mortas

Na Rússia do século XIX um indivíduo astuto e ganancioso compra pessoas já falecidas. Este exercício macabro tem uma finalidade bastante pragmática: conseguir terras cedidas pelo autocrático governo russo em função do número de servos que se detinha. Enquanto ainda figurassem nos censos, os mortos valiam como vivos, uns e outros meras coisas, objetos indiferenciados, bens transacionáveis, parte integrante das propriedades dos seus senhores, sem qualquer valor sentimental ou o respeito devido à pessoa humana. Os proprietários coniventes, que beneficiam da transação, vão desfilando ao longo do livro numa triste caricatura da mesquinhez daqueles que apoiados numa rígida hierarquia social se regozijam da sua superioridade. A eles se juntam os funcionários corruptos de uma burocracia caduca, completando o quadro de uma sociedade decadente.

«Almas Mortas» é uma sátira brutal e impiedosa, interrompida pela morte do seu autor, que deixou em aberto um final que se adivinha. É, sem dúvida, uma obra maior da literatura mundial, escrita por um dos maiores escritores de todos os tempos. Para ler, reler e sobretudo refletir, porque a história tem o mau hábito de se repetir.

“Não se pode dizer que Tchítchikov tenha roubado, mas sim que se aproveitou. É que cada um de nós se aproveita de alguma coisa: este, da floresta pública; aquele, dos dinheiros públicos; o terceiro rouba os próprios filhos a favor de uma atriz em digressão; o quarto rouba os camponeses para comprar móveis Hambs ou uma caleche. O que se pode fazer se são tantos neste mundo os chamarizes? Restaurantes não só caros mas com preços loucos, bailes de máscaras, festas, danças com ciganas. Como pode alguém conter-se se toda a gente, por todos os lados, faz o mesmo e se também a moda assim o exige – tenta lá conter-te! Até porque é impossível à pessoa conter-se eternamente. O homem não é Deus. Assim, também Tchítchikov, à semelhança dessa gente que por toda a parte se multiplica e adora toda a espécie de confortos, virou o bico ao prego em seu próprio proveito”.

Título: Almas Mortas

almas

Autor: Nikolai Gogol

Editora: Assírio e Alvim

Ano: 2002

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