O livro do chá

A pura beleza dos livros pode ser encontrada nesta obra sobre o ritual do chá, escrita no início do século XX por Kakuzu Okakura, intelectual japonês e crítico de arte de referência, tanto no seu país como no ocidente. Eloquente e refinado, exprime a sua amargura perante a hegemonia ocidental que na época se afirmava, ao mesmo tempo que enaltece um símbolo da cultura oriental que representa uma filosofia de vida mal compreendida por aqueles que a não respeitam.

A capacidade de apreciar as coisas simples da vida, os pequenos gestos, objetos, locais, situações, saboreando-os demoradamente segundo um ritual preciso. Parar para sentir a vida, escutá-la, entendê-la profundamente, sem distrações ou excessos, pois “quem é incapaz de reconhecer em si próprio a pequenez das grandes coisas, está apto a subestimar nos outros a grandeza das pequenas coisas”. E assim o chá atravessa fronteiras, línguas, culturas, civilizações, para constituir a ponte na qual a humanidade se encontra, despojada de artifícios e superficialismos. Um pequeno grande livro, ideal para a cabeceira de quem ambiciona o infinito.

“O céu da humanidade moderna está de facto despedaçado na luta ciclópica pela riqueza e pelo poder. O mundo anda às cegas na sombra do egoísmo e da vulgaridade. O conhecimento compra-se com uma má consciência, a benevolência pratica-se por amor à utilidade. O Oriente e o Ocidente, como dois dragões lançados num mar fermentoso, esforçam-se em vão por voltar a merecer a joia da vida. Precisamos novamente de uma Niuka que conserte a grandiosa devastação; aguardamos o grande Avatar. Entretanto, tomemos um gole de chá. O ardor da tarde ilumina os bambus, as fontes murmuram com gosto, o sussurro dos pinheiros escuta-se na nossa chaleira. Sonhemos com a evanescência, e demoremo-nos na bela tolice das coisas”.

Título: O Livro do CháChá

Autor: Kakuzu Okakura

Editora: Biblioteca editores independentes / Cotovia

Ano: 2007