Pais e filhos

«Pais e filhos» é uma daquelas obras de qualidade rara e excecional que facilmente se transformam no livro de uma vida. Os meandros mais profundos da alma humana fluem livremente em passagens de uma beleza extraordinária, que dá gosto ler e reler. É uma obra que nunca se esgota, quando chegamos ao fim regressamos naturalmente ao início, abrimos uma qualquer página ao acaso, procuramos uma passagem que deixou a sua marca e saboreamos a grandiosidade da obra maior de um grande autor.

O livro foca o choque de gerações, de perspetivas de vida que se transformam de forma constante mas ainda assim inesperada para quem vai ficando agarrado aos valores fundamentais de ontem, hoje tornados obsoletos. É um tema intemporal, que aqui aborda o confronto entre os liberais russos da década de 1830 e os seus filhos, adeptos do movimento niilista. Bazárov, um promissor jovem de indiscutível excelência intelectual, encara com superioridade condescendente e ligeiro enfado o mundo que o rodeia, enquanto inspira o seu discípulo Arkádi, menos radical e mais vulnerável às subtilezas das relações humanas. Mas o próprio Bazárov, de forma inesperada para si próprio, se confrontará com os limites da sua aparentemente inabalável filosofia de vida.

“Eu penso: aqui estou deitado à sombra da meda de feno… O estreito espaço que ocupo é tão minúsculo em comparação com o restante espaço, onde eu não estou e onde nada tenho que fazer; e a porção de tempo que tenho para viver é tão insignificante comparada com a eternidade, em que eu não estive nem estarei… E neste átomo, neste ponto matemático, o sangue circula, o cérebro funciona, e também deseja qualquer coisa… Que absurdo! Que futilidades!”

Título: Pais e filhos

Autor: Ivan Turguéniev

Editora: Relógio D’Água

Ano: 2010

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