Eichmann em Jerusalém – reportagem sobre a banalidade do mal

No início dos anos 60, o criminoso de guerra nazi Adolf Eichmann foi julgado em Israel e condenado à morte por enforcamento. Hanna Arendt, filósofa política de origem judaica, assistiu ao julgamento e elaborou uma série de artigos para o «The New Yorker» que resultaram nesta obra.

Se há livro cuja leitura devesse ser obrigatória, é este. É uma reflexão muito séria, porventura a mais lúcida jamais escrita, sobre a maior tragédia da história da humanidade, o holocausto. Explica racionalmente os fatores que estiveram na sua origem e chega a uma descoberta que tem tanto de surpreendente como de inquietante. Os holocaustos deste mundo, qualquer que seja a sua escala, não são fruto das ações de psicopatas, mas sim de pessoas consideradas normais, que quando colocadas no contexto de um sistema social doentio se demitem de exercer a sua responsabilidade pessoal para a delegarem na figura de autoridade que lhes ordena que destruam os seus semelhantes.

“Para desgraça sua, ninguém acreditou nele. O procurador não acreditou, porque essa não era a sua função. O advogado de defesa não lhe prestou atenção porque, ao contrário de Eichmann, não parecia ter o mínimo interesse por problemas de consciência. E os juízes não acreditaram porque eram demasiado bondosos e talvez também demasiado conscientes daquilo que eram os fundamentos essenciais da profissão que exerciam para admitirem que uma pessoa vulgar, “normal”, nem fraca de espírito, nem doutrinada, nem cínica, pudesse ser totalmente incapaz de distinguir o bem do mal. Preferiram concluir a partir de algumas mentiras esporádicas, que o réu era um mentiroso. E assim escapou-lhes o maior desafio moral e, porventura, jurídico de todo este processo. O entendimento dos juízes assentava na suposição de que o réu, como qualquer pessoa “normal”, teria, forçosamente, tido consciência da natureza criminosa dos seus atos. Eichmann era de facto, normal, no sentido em que não era uma “exceção no seio do regime nazi”. Contudo dada a especificidade do terceiro Reich só as “exceções” poderiam reagir “normalmente”. Esta simples verdade criava aos juízes um dilema que não podiam nem resolver nem ignorar”.

Eichmann

Título: Eichmann em Jerusalém – reportagem sobre a banalidade do mal

Autor: Hannah Arendt

Editora: Tenacitas

Ano: 2003