Os cúmplices

Numa cidade pequena onde todos se conhecem, Lambert, um indivíduo respeitável, casado e dono de uma empresa de construção, tem uma relação extraconjugal com a secretária. Não será uma relação amorosa mas uma relação sexual, sedimentada apenas no desejo e não no conhecimento mútuo. Até aqui a história é banal, mas afasta-se do trivial quando o casal se envolve num ato sexual enquanto Lambert conduz, o que o leva a perder momentaneamente o controlo do carro. É o suficiente para invadir a faixa contrária, provocando o despiste de um autocarro que transporta perto de 50 crianças, que acaba por colidir com um muro e incendiar-se. No calor do momento, Lambert segue o seu primeiro instinto e continua o seu percurso como se nada fosse, não prestando qualquer auxílio aos sinistrados. Apenas uma criança sobrevive.

Nos dias seguintes a dimensão da tragédia domina a nação, atraindo à pequena terra jornalistas, investigadores, curiosos, toda uma multidão que se concentra no único propósito de discutir o acidente e de especular sobre quem o terá provocado. Lambert move-se entre os seus perseguidores, mantém os seus rituais diários, joga às cartas com os vizinhos, almoça com a esposa, discute pormenores laborais com os seus funcionários e clientes. Enquanto o cerco se fecha à sua volta vive numa situação de permanente transe, não devido ao sentimento de culpa mas por acreditar que a qualquer momento irá ser descoberto e detido. Toda a sua vida irá acabar, a sua liberdade, os seus bens, a sua posição no mundo. Na beira do precipício apercebe-se gradualmente da vacuidade da sua existência e desenvolve uma obsessão. O seu desejo pela secretária, agora sua cúmplice, domina-o. Esta criatura que permanece impávida e serena perante o acontecido, aparentemente alheia e indiferente a tudo e a todos, será certamente extraordinária, pelo que apenas ela o poderá compreender e libertar. Nela projeta todas as suas aspirações e frustrações, mas para alcançar o seu propósito terá que ultrapassar uma barreira que se revela intransponível, o que irá determinar o seu destino.

“Então, o universo afastava-se até se transformar numa espécie de nebulosa sem importância. Os objetos perdiam o peso, as pessoas não passavam de fantoches minúsculos ou grotescos, e tudo o que habitualmente era considerado de valor passava a ser uma coisa sem sentido. Subsistia apenas, num mundo encolhido, envolvente e cálido, benfazejo, a pulsação do sangue nas artérias, uma sinfonia de início vaga e difusa, que, pouco a pouco, se ia tornando mais precisa até, por fim, se concentrar no sexo”.

Título: Os cúmplices

Autor: Georges Simenon

Editora: Dom Quixote

Ano: 1989

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O homem que via passar os comboios

Georges Simenon foi um escritor excecionalmente prolífico que publicou perto de 200 romances, para além de numerosos artigos, contos e novelas. Neste caso, a quantidade não foi inimiga da qualidade, como demonstram as inúmeras obras em que figura a personagem mais emblemática que criou, o comissário Maigret. Os pequenos livros que seguem as suas investigações transportam-nos a cenários maravilhosamente descritos de forma sucinta, pequenas localidades, aldeias, zonas urbanas com um ambiente muito próprio. É ali que Maigret faz a sua observação participante, como um antropólogo em pleno trabalho de campo. Instala-se na pensão local, frequenta o café, passeia pelas ruas e observa os intervenientes que ocasionalmente questiona. E assim, de forma metódica e persistente, desvenda as motivações e os conluios que se escondem em cada crime. São histórias fantásticas na sua aparente simplicidade, indispensáveis para qualquer amante de policiais.

«O homem que via passar os comboios» não tem Maigret como figura principal, mas ultrapassa a qualidade a que esta personagem nos habituou. É uma profunda obra psicológica passada na perspetiva do criminoso, um homem aparentemente normal, respeitável, plenamente integrado na sociedade, que quando confrontado com um acontecimento perturbador opta por enveredar por uma vida de crime. É com alguma incredulidade e bastante deleite que o leitor acompanha esta metamorfose inaudita, que explora brilhantemente os meandros mais negros da mente humana.

“Logo, Kees sonhara vir a ser outra coisa que não Kees Popinga. E era justamente por isso que ele era tão Popinga, que ele o era demasiado, que ele exagerava, porque sabia que, se cedesse num só ponto, nada mais o susteria”.

Título: O homem que via passar os comboios

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Autor: Georges Simenon

Editora: Público – coleção mil folhas

Ano: 2002