Um punhado de pó

Evelyn Waugh é mais conhecido entre nós como o autor de «Reviver o passado em Brideshead», mas os seus excecionais dotes literários não se ficam por aí. Controverso e sarcástico, conservador e católico, inimigo visceral do estado social e da classe trabalhadora, racista e anti-semita, profundamente elitista e jamais politicamente correto, visto por muitos como um insuportável snob misantropo, nunca deixou de recorrer à sua sátira feroz para criticar, expor e denunciar tiques, clichés e preconceitos sociais, aos quais ele próprio não era alheio. Deixou-nos uma obra extensa e variada, que inclui novelas, contos, biografias, literatura de viagens, ensaios e reportagens.

«Um punhado de pó», considerado por muitos como a sua obra-prima, é um livro belo sobre o egoísmo elevado ao seu máximo expoente. Na sua escrita elegante, Waugh descreve o declínio de uma relação conjugal que une duas personagens profundamente dispares. Lady Brenda é visceralmente egocêntrica e vive frustrada na sua relação com um homem bondoso, ingénuo, rotineiro e previsível. Encontra distração numa relação extraconjugal com um jovem desenxabido e desinteressante, que de alguma forma preenche a sua necessidade de aventura. Por ele, ou por si própria, esquece tudo, incluindo o próprio filho. O marido desprezado, sujeito aos mais cruéis atos de insensibilidade, privado da sua família, do seu lar e da sua posição no mundo, procura evasão numa longa viagem por paisagens exóticas, mas acaba por regressar ao ponto de partida. O egoísmo humano persegue-o, como uma fatalidade incontornável. É um livro perturbador, intenso e inesquecível, que nos leva a questionar os fundamentos da alma humana.

“Ela franziu as sobrancelhas, não acreditando imediatamente no que lhe contavam. – O John… o John Andrew… Eu… Ah, graças a Deus… . – Depois rebentou em lágrimas”.

Título: Um punhado de pó

Autor: Evelyn Waugh

Editora: Cotovia

Ano: 2008

Pó