O domador de leões

No mundo relativamente homogéneo dos policiais nórdicos, Camilla Lackberg distingue-se com um estilo muito peculiar. As crónicas familiares detalhadas e quase idílicas convivem com os crimes mais hediondos e terríficos, porque afinal tudo é humano, o amor, a amizade, a compaixão, mas também a inveja, o ciúme, a violência. Sem nunca deixar de ser verosímil, o enredo ganha intensidade e prende o leitor a cada página, sem ter que recorrer aos artifícios da acção constante. Enquanto as personagens vão calmamente buscar os filhos à escola ou os levam às aulas de equitação, fazem o jantar ou vão às compras, o leitor fica preso a algo indefinível que se está a passar nas entrelinhas, o não dito que se subentende. A descrição do quotidiano nunca aborrece, antes acrescenta profundidade e consistência às personagens enquanto adensa o mistério que se vai revelando gradualmente, em pequenas pistas discretas.

Em «O domador de leões», o casal maravilha composto pelas duas personagens centrais desta série policial, Erica, a escritora famosa que se dedica à investigação de crimes reais e Patrick, o competente e esforçado inspector da polícia, vê-se confrontado com várias raparigas desaparecidas, uma das quais acaba por aparecer terrivelmente mutilada, apenas para falecer antes de ter a possibilidade de revelar o que lhe sucedera. Neste livro, Camilla Lackberg vai mais além. Apesar da fórmula ser idêntica à dos livros anteriores, com os traumas do passado na origem dos crimes do presente, pela primeira vez estamos perante crimes em série que atravessam gerações e com uma história que fica em aberto, deixando no ar a possibilidade de uma sequela.

“O pior era a incerteza. Era como se um leão faminto andasse de um lado para o outro à espera da próxima presa”.

Título: O domador de leões

Autor: Camilla Lackbergleoes

Ano: 2016

Editora: Dom Quixote

 

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A baleia

«A baleia», de Benji Davis, é um livro doce e belo que facilmente cativa os mais pequenos e os seus pais. Apresenta-nos Noé, um menino sensível que vive numa pequena casinha de madeira na praia, com o seu pai pescador. As ilustrações suaves de extraordinária qualidade transmitem na perfeição o ambiente simples mas acolhedor de uma família monoparental masculina e dos seus inúmeros gatos de todas as cores, que vive sem luxos para além daqueles que a natureza tem para oferecer. A ausência da mãe está subentendida, nunca é referida abertamente, é uma perda subtil que se intui numa leve melancolia que não choca nem magoa. Enquanto o pai trabalha, Noé fica sozinho em casa e o tempo passa-se em passeios na praia, com as conchas, o mar, a areia e os gatos por companhia. É num desses passeios que encontra uma baleia bebé encalhada na areia, que se apressa a salvar. Tem assim início uma bela amizade que só podia acabar bem. A necessária separação é aceite no final, quando a baleia regressa ao seu elemento, mas a proximidade relativa dos dois mundos paralelos permite o avistamento ao longe, mantendo acesa a chama do afecto.

Título: A baleia

Autor: Benji DaviesBaleia

Editora: Orfeu Mini

Ano: 2016

Idade recomendada: 2-8 anos

 

Stalker

«Stalker», o quinto livro de uma fantástica série policial nórdica, mantém a fórmula dos seus antecessores sem se tornar repetitivo nem previsível. Capítulos curtos carregados de adrenalina e que se lêem compulsivamente de coração nas mãos são novamente a característica mais marcante de uma leitura que não desilude os apreciadores do género.

Desta vez, o famoso hipnotista Erik Maria Bark e o implacável investigador finlandês Joona Lina unem esforços na perseguição de um indivíduo de identidade desconhecida que assassina as suas vítimas de forma brutal, logo após divulgar pequenos vídeos que captou das suas vidas privadas, filmados através da janela sem que elas se tivessem apercebido da sua presença.  A polícia assiste impotente aos filmes sem ter tempo de identificar a vítima a tempo de evitar a tragédia, o que leva a desesperada comissária Margot Silverman a solicitar o apoio dos pouco convencionais Erik e Joona, que pensam e agem sempre fora da caixa das convenções sociais e dos rígidos procedimentos da burocracia policial.  Os resultados são imprevisíveis e surpreendentes, mantendo o suspense na sua intensidade máxima até à apoteose final.

“Erik é arrancado ao sono por uma aragem que lhe passa no rosto. Alguém fala muito baixinho e depressa. Quando ele abre os olhos, a voz cala-se. A escuridão é quase impenetrável e ele demora alguns segundos a perceber onde está”.

Título: Stalker

Autor: Keplerstalker

Editora: Porto Editora

Ano: 2016

 

A cor da magia

É difícil conceber alguém com uma imaginação tão fértil como Terry Pratchett, que da sua criatividade delirante conseguiu extrair esta pérola da literatura fantástica, a primeira obra de uma extensa saga passada num mirabolante mundo imaginário povoado de criaturas extraordinárias, o Discworld. As obras deste autor têm virtudes que as distinguem da literatura do género. Não são apenas mais um elemento indistinto num tipo de literatura que se tornou moda; possuem uma originalidade própria que as torna únicas e impossíveis de replicar. A sua  genial ironia estabelece uma analogia deliciosa com as vicissitudes da existência humana, caricaturadas num contexto onde a imaginação não conhece limites.

Nesta primeira obra da saga, um feiticeiro fracassado acompanha um turista imprevidente numa viagem por um mundo hostil. Twoflower, o primeiro e único indivíduo a quem passou pela cabeça a surpreendente ideia de visitar terras distantes num mundo onde esse conceito é desconhecido, diverte-se a tirar fotografias a dragões enquanto estes o tentam devorar. Rincewind, o desgraçado feiticeiro a quem coube a ingrata tarefa de o acompanhar, procura desesperadamente sobreviver às situações mais inconcebíveis e improváveis, enquanto serve de involuntário cicerone ao seu alegre e inconsequente companheiro. É uma estimulante massagem para as imaginações menos convencionais. Acima de tudo, é uma leitura extremamente enriquecedora para adultos e jovens, que entretém ao mesmo tempo que transmite conceitos importantes e valores fundamentais.

“Twoflower tried to explain. Rincewind tried to understand”.

Título: A cor da magia

Autor: Terry Pratchettcolor of magic

Editora: Gollancz

Ano: 1988

Nota: edição portuguesa da Temas e Debates

 

A Estrela do Diabo

«A estrela do diabo» coloca Jo Nesbo alguns furos acima da generalidade dos seus congéneres nórdicos que se dedicam à escrita de policiais. As personagens são um pouco mais elaboradas e o enredo é consistente e fornece a dose certa de adrenalina, mas é o sarcasmo inteligente que marca a diferença, com algumas tiradas interessantes, bem escritas e oportunas a definirem o caráter de Harry Hole, o inspetor atormentado que teima em caminhar na beira do precipício na companhia da sua inseparável garrafa.

A sua tendência autodestrutiva não o impede de perseguir eficazmente um inteligente serial-killer ao mesmo tempo que enfrenta um arqui-inimigo verdadeiramente detestável e irritantemente adulado por todos, que não lhe dá um minuto de tréguas. Pelo meio ainda tem tempo para ensaiar umas tiradas românticas, talvez a componente menos convincente do livro, por soar ligeiramente a cliché. No entanto, a impressão geral é bastante positiva. Quem aprecia este tipo de literatura certamente não ficará desiludido e corre mesmo o risco de se viciar nas desventuras deste detetive pouco original, mas cativante.

“Para um alcoólico, a vida consistia entre estar-se bêbado e os intervalos entre estar-se bêbado. Qual dessas partes era a vida real era uma questão filosófica que ele nunca tivera tempo suficiente para examinar, já que, de qualquer maneira, a resposta não lhe possibilitaria uma vida melhor. Ou pior. Segundo a lei básica da vida de um alcoólico – A Grande Sede – tudo o que era bom, mesmo tudo, perder-se-ia, mais cedo ou mais tarde”.

Título: A estrela do diabo

Autor: Jo Nesbo

Editora: D. Quixote

Ano: 2011

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Pais e filhos

«Pais e filhos» é uma daquelas obras de qualidade rara e excecional que facilmente se transformam no livro de uma vida. Os meandros mais profundos da alma humana fluem livremente em passagens de uma beleza extraordinária, que dá gosto ler e reler. É uma obra que nunca se esgota, quando chegamos ao fim regressamos naturalmente ao início, abrimos uma qualquer página ao acaso, procuramos uma passagem que deixou a sua marca e saboreamos a grandiosidade da obra maior de um grande autor.

O livro foca o choque de gerações, de perspetivas de vida que se transformam de forma constante mas ainda assim inesperada para quem vai ficando agarrado aos valores fundamentais de ontem, hoje tornados obsoletos. É um tema intemporal, que aqui aborda o confronto entre os liberais russos da década de 1830 e os seus filhos, adeptos do movimento niilista. Bazárov, um promissor jovem de indiscutível excelência intelectual, encara com superioridade condescendente e ligeiro enfado o mundo que o rodeia, enquanto inspira o seu discípulo Arkádi, menos radical e mais vulnerável às subtilezas das relações humanas. Mas o próprio Bazárov, de forma inesperada para si próprio, se confrontará com os limites da sua aparentemente inabalável filosofia de vida.

“Eu penso: aqui estou deitado à sombra da meda de feno… O estreito espaço que ocupo é tão minúsculo em comparação com o restante espaço, onde eu não estou e onde nada tenho que fazer; e a porção de tempo que tenho para viver é tão insignificante comparada com a eternidade, em que eu não estive nem estarei… E neste átomo, neste ponto matemático, o sangue circula, o cérebro funciona, e também deseja qualquer coisa… Que absurdo! Que futilidades!”

Título: Pais e filhos

Autor: Ivan Turguéniev

Editora: Relógio D’Água

Ano: 2010

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O monte dos vendavais

«O monte dos vendavais» é um retrato cruel de uma relação tóxica que nos leva a questionar a fina fronteira que separa a paixão da obsessão. Numa sociedade em que o estatuto social determina o percurso de cada indivíduo, Heathcliff não tem nome, parentes, passado, nenhuma referência que permita definir a sua condição. Foi acolhido por um rico proprietário rural que o encontrou, ainda criança, a vaguear pelas ruas. Na sua casa encontra os meios necessários para sobreviver e tem mesmo acesso a alguma educação, mas não descobre um lar. Pertence sem pertencer, constantemente humilhado pelo filho do seu benfeitor, que nunca o deixa esquecer a sua suposta inferioridade. É neste meio hostil que encontra a sua alma gémea, Catherine, filha do dono da casa. Caprichosa e instável, obstinada e destemida, é a sua companheira de aventuras até ao momento em que decide casar com um jovem do seu meio social. A vingança de Heathcliff irá perpetuar-se até à próxima geração, destruindo impiedosamente as vidas de todos os que de alguma forma se relacionam com o que considera ser a tragédia da sua vida, a perda do seu amor.

A linguagem é crua, apesar de bela, e não nos poupa aos pormenores mais desagradáveis e repugnantes. A violência física e psicológica é constante e afeta particularmente os mais vulneráveis, crianças, mulheres, doentes terminais. Não há barreiras morais que detenham a conduta de um homem que se alimenta do sofrimento alheio sem nunca se sentir plenamente saciado, pois aquilo que mais deseja está irremediavelmente perdido.

“He had an aversion to yielding so completly to his feelings, choosing rather to absent himself; and eating once in twenty-four hours seemed sufficient sustenance for him”.

Título: Wuthering Heights

Autor: Emily Bronte

Editora: Wordsworth Classics

Nota: Edição portuguesa da Presença

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