O triunfo de César

A série Roma Sub-Rosa, de Steven Saylor, acompanha as aventuras de Gordiano, o descobridor, e conta já com 15 títulos. Gordiano é uma personagem cativante, um detetive moderno que investiga intrincados mistérios nos últimos tempos da República Romana e nos concede a sua visão de uma sociedade fascinante que esteve na origem direta daquela em que vivemos hoje. Casado com uma antiga escrava egípcia e pai de quatro filhos, três deles adotados, investiga casos complicados de inspiração real a pedido de clientes abastados, alguns deles célebres.

Personagens marcantes atravessam-se no seu caminho, como Cícero, Catilina, Pompeu, Marco António. Em «O Triunfo de César», Gordiano investiga uma possível conspiração contra Júlio César a pedido de Calpúrnia, sua esposa. Os meandros das ferozes intrigas políticas revelam-se fatais num momento determinante da história romana, quando o ambicioso Júlio César dá o golpe de misericórdia na república e estabelece as bases do que virá a ser o império romano. Um interessante enredo policial, leve e descomprometido, que nos permite conhecer um pouco melhor um momento determinante da nossa história.

“Em circunstâncias normais, uma respeitável figura pública como Cícero não se gabaria de a filha estar prestes a dar à luz sem estar casada. Mas as circunstâncias tinham deixado de ser normais; vivíamos num mundo em que Calpúrnia consultava um adivinho e Cícero se tinha casado com uma adolescente desenxabida”.

Título: O triunfo de César

Autor: Steven Saylor

Editora: Bertrand

Ano: 2008

césar

Roma e Império

É possível caraterizar esta longa obra em duas partes com uma pequena frase: o melhor dos romances históricos para o leitor exigente que aprecia o género. Com as suas duas obras «Roma» e «Império», a segunda a sequela da primeira, Steven Saylor embarca num ambicioso relato da história de Roma antiga desde os seus mitos fundadores até aos tempos áureos do império. As fontes históricas para este período tão importante da nossa civilização nem sempre estão disponíveis de forma satisfatória, seja em quantidade seja em qualidade, pelo que a imaginação do autor cobre as falhas de forma coerente e eficaz, sem deixar pontas soltas.

Apesar da sua grande dimensão (cada livro ultrapassa as 600 páginas), a leitura é fácil e fluida, pois a escrita é bastante acessível e despretensiosa, e a narrativa está repleta de acontecimentos emocionantes que cativam o leitor. É uma forma muito agradável de ficar a conhecer melhor um período histórico tão importante, que aqui nos é revelado na perspetiva das diversas gerações de uma família romana proeminente, que convive com imperadores, generais, senadores, filósofos e outras figuras determinantes para a génese da civilização ocidental.

“A própria Cleópatra não tinha mais de vinte e cinco anos. Parecia mais velha na estátua que se encontrava no templo, pensou Lúcio; e com as vestes reais que usava no dia em que ele a conhecera também. Neste dia, envergava um vestido simples, de linho, em mangas, preso na cintura com uma faixa debruada a ouro. O cabelo, que costumava usar preso no alto da cabeça, caía-lhe hoje sobre os ombros, contornando-lhe a face. Não trazia o diadema: Ainda era cedo, e a rainha ainda não se tinha ataviado para receber visitas formais”.

Roma

Império

Título: Roma e Império

Autor: Steven Saylor

Editora: Bertrand

Ano: 2008 e 2011

O último cabalista de Lisboa

Numa reconstituição histórica irrepreensível, Richard Zimler transporta-nos ao início do século XVI para dar conta de um acontecimento negro da nossa história, o massacre de cerca de 2000 cristãos-novos, perseguidos pelas ruas de Lisboa, despojados de todos os bens e dignidade, torturados com requintes de malvadez, queimados em Praça Pública. Como acontece frequentemente em tais casos, foram a ignorância e a superstição que presidiram à matança, neste caso com os frades como seu instrumento, ao acusarem as vítimas de serem responsáveis pela peste e pela fome.

É neste caos que se move a personagem principal, um jovem judeu que nos dá a sua perspetiva pessoal dos acontecimentos, ao mesmo tempo que procura localizar um valioso manuscrito desaparecido e desvendar a morte do tio, famoso cabalista que encontra assassinado na cave da sua casa pouco antes da tragédia que irá ceifar tantas vidas. Uma leitura recomendada não apenas pela importância dos factos que retrata, mas sobretudo pelo simples prazer da leitura proporcionada por um argumento inteligente e uma escrita agradável.

“Como descrever a primeira noite da Páscoa? As palavras e os rostos tranquilos? A alegria estonteante? A tristeza pelos que nos tinham deixado? Ocupámos os nossos lugares unidos pela aura comum dor preparativos. Meu tio, como sempre, era o nosso guia no ritual. Mesmo sendo a Páscoa uma festa que tem o centro na recordação, uma rememoração da história de como Deus retirou os judeus da escravidão, possui também uma essência secreta. No interior do corpo da Tora, encolhida como uma fénix no ovo, esconde-se a história da jornada espiritual que toos nós poemos fazer, da escravidão para a bem aventurança. A Haggada da Páscoa é um sino de ouro que ao repicar nos diz: «Lembra-te que a Terra Prometida está dentro de ti!»”

cabalista

Título: O último cabalista de Lisboa

Autor: Richard Zimler

Editora: Leya

Ano: 2010

Eu, Cláudio

Roma antiga marca uma presença fundamental na árvore genealógica da sociedade ocidental, a par da Grécia. É ali que encontramos as raízes da nossa civilização, a língua, a lei, a arquitetura, as infraestruturas, a organização do Estado. Os fundamentos do que somos hoje enquanto cidadãos firmaram-se naquele mundo longínquo e nem o obscurantismo da Idade Média os conseguiu anular. «Eu Cláudio» acompanha o percurso do mais improvável imperador da história de Roma. Portador de deficiências extremamente estigmatizadoras naquela sociedade implacável, foi menosprezado e votado ao esquecimento pelos seus cruéis familiares, o que lhe salvou a vida e levou a Imperador. Entalado entre os tristemente célebres Calígula e Nero, tem uma identidade muito própria que Robert Graves, consagrado escritor britânico, reconstrói de forma brilhante, numa escrita fluida e imaginativa.

«Eu Cláudio» acompanha esta culta e injustiçada personagem até se tornar imperador, enquanto «Cláudio o Deus» se centra no período do seu império. Ambos foram retratados pela BBC nos anos 70, numa interessante série com o mesmo título. Uma leitura essencial para quem quer conhecer melhor este período marcante da nossa história.

“Quanto a mim, dizia-me sempre: «Cláudio, tu não passas de um desgraçado, sem grande utilidade neste mundo, mas ao menos a tua vida não está em perigo»”.

Claudio

Título: Eu, Cláudio

Autor: Robert Graves

Editora: Bertrand Editora

Ano: 2012

O Nome da Rosa

Qualquer romance histórico que se preze apresenta na contracapa a inevitável comparação com «O Nome da Rosa», o que se compreende porque é um livro de referência, mas não deixa de ser desadequado considerando que é uma obra maior da literatura que não pode ser generalizada. Não é comum ter a erudição, inteligência e sensibilidade de Umberto Eco, que num momento de génio produziu esta obra extraordinária, pelo que as imitações reproduzem apenas o esqueleto do livro mas não o essencial. Apresentam bispos maldosos a perseguir monges atormentados por causa de um qualquer manuscrito perdido, mas não afloram o essencial de uma obra única.

«O Nome da Rosa» é uma intriga policial inteligentíssima, que gere de forma genial o suspense e o mistério que este estilo implica. É um romance histórico que faz um enquadramento excecionalmente detalhado e preciso de uma época conturbada. É um drama humano profundo, que retrata a relação mestre/discípulo com uma sensibilidade rara. É um belo exercício de escrita, subtil e rico, que dá gosto reler. É, acima de tudo, uma obra que merece ficar na história da literatura e que retrata um momento essencial dessa mesma história: a censura da igreja católica medieval às obras da antiguidade clássica pré cristã, escondidas em bibliotecas impenetráveis, apagadas de pergaminhos reutilizados, copiadas por monges que as não deviam tentar compreender, uma tarefa que se vem a revelar impossível para as mentes inquisitivas.

 “Porque nem todas as verdades são para todos os ouvidos, nem todas as mentiras podem ser reconhecidas como tais por um espírito piedoso, e os monges, enfim, estão no scriptorium para levar a cabo uma obra precisa, para a qual devem ler certos volumes e não outros, e não para seguir qualquer insensata curiosidade que os colha, quer por debilidade da mente, quer por soberba, quer por sugestão diabólica”.

Eco

Título: O Nome da Rosa

Autor: Umberto Eco

Editora: Difel

Ano: 1996