A cor da magia

É difícil conceber alguém com uma imaginação tão fértil como Terry Pratchett, que da sua criatividade delirante conseguiu extrair esta pérola da literatura fantástica, a primeira obra de uma extensa saga passada num mirabolante mundo imaginário povoado de criaturas extraordinárias, o Discworld. As obras deste autor têm virtudes que as distinguem da literatura do género. Não são apenas mais um elemento indistinto num tipo de literatura que se tornou moda; possuem uma originalidade própria que as torna únicas e impossíveis de replicar. A sua  genial ironia estabelece uma analogia deliciosa com as vicissitudes da existência humana, caricaturadas num contexto onde a imaginação não conhece limites.

Nesta primeira obra da saga, um feiticeiro fracassado acompanha um turista imprevidente numa viagem por um mundo hostil. Twoflower, o primeiro e único indivíduo a quem passou pela cabeça a surpreendente ideia de visitar terras distantes num mundo onde esse conceito é desconhecido, diverte-se a tirar fotografias a dragões enquanto estes o tentam devorar. Rincewind, o desgraçado feiticeiro a quem coube a ingrata tarefa de o acompanhar, procura desesperadamente sobreviver às situações mais inconcebíveis e improváveis, enquanto serve de involuntário cicerone ao seu alegre e inconsequente companheiro. É uma estimulante massagem para as imaginações menos convencionais. Acima de tudo, é uma leitura extremamente enriquecedora para adultos e jovens, que entretém ao mesmo tempo que transmite conceitos importantes e valores fundamentais.

“Twoflower tried to explain. Rincewind tried to understand”.

Título: A cor da magia

Autor: Terry Pratchettcolor of magic

Editora: Gollancz

Ano: 1988

Nota: edição portuguesa da Temas e Debates

 

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Davam grandes passeios aos domingos

A força contagiante de poemas maravilhosos como a «Toada de Portalegre» ou o «Cântico Negro» reflete uma alma profunda que tem o dom inequívoco da palavra. São poemas que arrepiam pela sua intensidade feroz, hinos dos momentos mais determinantes das nossas vidas. José Régio é um nome maior da literatura portuguesa do século XX que se destacou pela sua versatilidade. Da poesia ao ensaio, passando pelo teatro e a ficção, navegou à vontade por diversos estilos literários, sem nunca perder o pé.

«Davam grandes passeios aos domingos» surge no Plano Nacional de Leitura como recomendação para o 9º ano de escolaridade. É uma pequena e deliciosa história que se lê de uma assentada só, tanto pela sua brevidade como pelo interesse que desperta. Rosa Maria é uma personagem cativante que instintivamente gera empatia. Afligida pela desventura de ser órfã e pobre num tempo em que a emancipação feminina ainda era uma miragem distante, ousa sonhar com horizontes mais longínquos do que aqueles que a sociedade lhe reservou. Acolhida por familiares abastados, está fadada a permanecer nas sombras enquanto discreta e apagada professora de lavores e piano da jovem estouvada da família. Mas Rosa Maria é uma pessoa sensível, com necessidade de estímulos intelectuais e emocionais que superam a sua posição social. Na sua ingenuidade, é levada a acreditar que a sua realização é possível, que pode transpor as firmes e intransigentes barreiras de uma sociedade fortemente hierarquizada para se tornar na pessoa que sonha ser. O leitor acompanha o seu devaneio até ao inevitável desfecho, o único possível numa sociedade que não tolera desvios.

“E o que mais a desesperava nas noites de insónia, quando o soão quase súbito se levantava, sacudia a repelões portas e janelas, depois se engolfava nos becos vizinhos, de redor da cadeia, com uivos cavos morrendo ao longe, – era ver como tinha em si grandes forças vivas, uma rara capacidade de amar, de se dar, de viver, e estupidamente não lhe permitia a vida expandi-las”.

Título: Davam grandes passeios aos domingos

Autor: José Régio

Editora: Unibolso

passeios

Terry Pratchett

Desta vez não se apresenta um livro, mas a série «Discworld», iniciada em 1983 e com 40 títulos publicados, da autoria do escritor inglês Terry Pratchett, recentemente falecido. Retrata um mundo imaginário em forma de disco sustentado por 4 elefantes por sua vez apoiados numa tartaruga gigante. Com um sentido de humor negro refinado, Terry Pratchet descreve as peripécia dos seus habitantes, bruxas, anões, trolls, feiticeiros, pessoas com queda para a desgraça e mesmo uma morte suis generis, todos eles parábolas do ser humano mais tradicional que habita este nosso mundo.

Não é necessário ler toda a série por ordem, pois cada livro pode ser lido independentemente como uma história autónoma, apesar de eventuais referências a acontecimentos passados. A oferta em português é escassa e dispersa, com edições da Caminho, da Saída de Emergência e da Temas e Debates. Não há razão para a escassez da oferta a não ser a insuficiência da procura, totalmente injustificada num contexto em que os livros de fantasia estão na moda, pois a qualidade da série Discworld ultrapassa em muito outras obras do mesmo género. É inteligente, divertida, imaginativa, educativa e, acima de tudo, proporciona um prazer imenso a quem aprecia um bom livro.

“Bad spelling can be lethal. For example, the greedy Seriph of Al-Ybi was once cursed by a badly educated deity and for some days everything he touched turned to Glod, which happened to be the name of a small dwarf from a mountain community hundreds of miles away who found himself magically dragged to the kingdom and relentlessly duplicated. Some two thousand Glods later the spell wore off. These days, the people of Al-Ybi are renowned for being unusually short and bad tempered”.

Excerto retirado de «The wit and wisdom of the Discworld», de Stephen Briggs (Corgi Books)

Magia

Autor: Terry Pratchett

Editoras: Caminho, Saída de Emergência, Temas e Debates