Wilt em parte incerta

Filho de um simpatizante nazi, Tom Sharpe, um dos expoentes máximos do humor britânico, utilizou os seus dotes literários em prole do combate ao racismo na África do Sul, país onde assistiu em primeira mão aos horrores da violência racial. O seu ativismo literário contra o apartheid valeu-lhe a prisão e a deportação para a sua Grã-Bretanha natal no início dos anos 60. Distante da contestação politica, em 1976 publica Wilt, novela humorística que introduz o seu personagem mais carismático, Henry Wilt, professor de literatura num colégio de artes e tecnologia que dá o nome a cinco novelas publicadas ao longo de quase 25 anos.

«Wilt em parte incerta» é a penúltima novela em que figura este personagem desafortunado e incompreendido que, como é hábito, se vê rodeado de indivíduos vulgares e desagradáveis que se envolvem nas tramas mais absurdas e disparatadas. A sua opressiva esposa parte para umas férias nos EUA com as filhas de ambos, as maquiavélicas e imparáveis quadrigémeas, deixando-o livre para cumprir o sonho antigo de divagar sem destino a pé pela Inglaterra profunda. Mas como tudo na vida de Wilt, o passeio vai ser tudo menos bucólico. As trapalhadas perseguem-no mesmo nos confins mais recônditos onde se pretende evadir, transfigurando esta novela numa paródia sem fim. Afinal, Tom Sharpe transformou o mau gosto numa forma de arte.

“Então, subitamente, o seu pé ficou preso na raiz de um abrolho e ele sentiu-se a cair de cabeça. Por um momento a sua mochila, presa num dos espinhos do abrolho, quase lhe amparou a queda. Mas Wilt continuou a cair, aterrou de cabeça na parte de trás da pick-up de Bert Addle e desmaiou. Era quinta-feira à noite”.

Título: Wilt em parte incerta

Autor: Tom Sharpe

Editora: Teorema

Ano: 2004

wilt

O código dos Wooster

G. Wodehouse é um mestre do humor britânico. Refinado e profundamente inteligente, uma das suas mais carismáticas personagens é o mordomo Jeeves, “a gentleman’s personal gentleman”, que figura em mais de 40 novelas e contos publicados entre 1915 e 1974. Fleumático e perspicaz, resolve discretamente todas as embrulhadas criadas pelo seu amo Bertie Wooster, um cavalheiro inglês pouco arguto e com uma assinalável propensão para o desastre.

«O código dos Wooster» é a terceira novela em que figuram estas singulares personagens. Numa mansão senhorial inglesa reúne um grupo de figuras inesquecíveis que se envolvem em intrincadas peripécias pelos motivos mais inacreditáveis. Uma tia autoritária disposta a tudo para recuperar uma nateira em forma de vaca, um amigo disparatado que cria salamandras na banheira e corre o risco de perder a sua noiva, uma jovem inconsequente e estouvada que quer à força casar com o pároco. Cada trama se enreda nas restantes, resultando numa embrulhada deliciosa de equívocos.

«- Se não arranjas uma saída, parece-me que isto será o fim. É claro que ainda não tiveste tempo de assimilar bem o assunto. Enquanto janto, analisa-o mais uma vez de todos os ângulos. É possível que tenhas uma inspiração. As inspirações surgem de repente e quando menos se espera, não surgem? De jato, quero dizer.

– Sim, senhor. Dizem que o matemático Arquimedes descobriu o princípio da impulsão, certa manhã, quando estava no banho.

– Pois aí tens. E não me parece que ele fosse qualquer coisa de especial comparado contigo.

– Era um homem excecional, creio. Tem-se lamentado imenso que ele haja sido assassinado posteriormente por um soldado.

– Que pena. Mas, enfim, a carne é pó… não é assim que se diz?

– Sim senhor.»

Título: O código dos Wooster

Autor: P. G. Wodehouse

Editora: Livros da Raposa

Ano: 2007

Wooster

As Esganadas

O livro brasileiro de ficção mais vendido em 2012 é uma surpresa muito agradável. Jô Soares transporta-nos para o Rio de Janeiro do final dos anos 1930, onde uma série de bizarros homicídios são cometidos por um serial killer de gosto muito peculiar. As vítimas são mulheres obesas e a arma do crime… doces portugueses! Estão lançados os dados para uma divertida caça ao criminoso protagonizada por uma original equipa de detetives que contam com o apoio de uma bela e corajosa fotógrafa.

Neste invulgar e divertido romance policial o leitor não lê avidamente até à última página a roer as unhas até ao sabugo para saber quem é o criminoso, que lhe é revelado logo no início. Toda a narrativa se centra nas peripécias atabalhoadas da trupe detectivesca que reúne um ex-investigador português dado a grandes leituras a um trio de policiais brasileiros pouco convencionais. Com grande mestria Jô Soares diverte o leitor com crimes macabros passados no Brasil do Estado Novo, não deixando de fazer referência a pormenores históricos curiosos, como uma corrida de automóveis em que participou Manoel de Oliveira.

“A gorda é a última freguesa a deixar o tradicional chá a tarde na confeitaria Colombo. Segue pela Gonçalves Dias em direção à rua do Ouvidor. A sua bata branca é amarelada pela infinita quantidade de molhos e caldos nela derramada. Farelos antiquíssimos apegam-se como náufragos desesperados aos babados da blusa. A gorda é bela, bela e voraz”.

Título: As Esganadas

esganadas

Autor: Jô Soares

Editora: Editorial Presença

Ano: 2013

Jaime Bunda

A boa literatura não é apenas composta de grandes obras, densas e profundas. O universo literário é tão vasto quanto os diversos estados de espírito dos leitores, daí a sua riqueza e o fascínio que exerce naqueles que se deixam seduzir pelos seus encantos. «Jaime Bunda» é um companheiro muito agradável para os momentos mais descontraídos, tão agradável que os dois livros que Pepetela escreveu com esta original personagem sabem a pouco. É difícil não desejar continuar a seguir as peripécias deste avantajado detetive, que cativa com o seu estilo desajeitado e ingénuo.

No peculiar ritmo angolano, um país em transformação, pleno de idiossincrasias e contradições, serve de cenário às aventuras mirabolantes de um detetive fascinado por romances policiais. Jaime Bunda faz um esforço atabalhoado para deslindar complexos enigmas, tão intrincados quanto as redes da corrupção e injustiça que marcam a sociedade do seu país. Pois apesar do tom satírico e aparentemente leve dos livros, a crítica social está lá, nas entrelinhas.

“JB despejou o copo de vinho tinto, maneira de limpar as vias de entrada para a caldeirada. Com indisfarçável prazer. Nicolau suspirou de alívio, finalmente o grande detetive gostara de alguma coisa. E ficou concentrado no prato para acompanhar o ritmo de Jaime Bunda em plena e espantosa missão de esvaziar em tempo recorde a panela de caldeirada, pedindo mais para poder servir de conduto aos dois funges de que entretanto se servira. O chefe local dos SIG não sabia se nova panela significava aumento da despesa ou se fazia parte da conta, mas pouco lhe interessava, o serviço nunca fora tão mesquinho ao ponto de analisar à lupa o que se comia em refeições de trabalho, ainda por cima com visitantes ilustres. Não diziam que os SIG estavam fora do Orçamento Geral do Estado? O dinheiro saía de um qualquer saco azul. Portanto, também ninguém controlava despesas menores. E provavelmente nem as maiores, mas isso era blasfémia que só se permitia pensar de boca aferolhada”.

Título: Jaime Bunda agente secreto

bunda

Autor: Pepetela

Editora: Dom Quixote

Ano: 2001

Título: Jaime Bunda e a morte do americano

Americano

Autor: Pepetela

Editora: Dom Quixote

Ano: 2003

Terry Pratchett

Desta vez não se apresenta um livro, mas a série «Discworld», iniciada em 1983 e com 40 títulos publicados, da autoria do escritor inglês Terry Pratchett, recentemente falecido. Retrata um mundo imaginário em forma de disco sustentado por 4 elefantes por sua vez apoiados numa tartaruga gigante. Com um sentido de humor negro refinado, Terry Pratchet descreve as peripécia dos seus habitantes, bruxas, anões, trolls, feiticeiros, pessoas com queda para a desgraça e mesmo uma morte suis generis, todos eles parábolas do ser humano mais tradicional que habita este nosso mundo.

Não é necessário ler toda a série por ordem, pois cada livro pode ser lido independentemente como uma história autónoma, apesar de eventuais referências a acontecimentos passados. A oferta em português é escassa e dispersa, com edições da Caminho, da Saída de Emergência e da Temas e Debates. Não há razão para a escassez da oferta a não ser a insuficiência da procura, totalmente injustificada num contexto em que os livros de fantasia estão na moda, pois a qualidade da série Discworld ultrapassa em muito outras obras do mesmo género. É inteligente, divertida, imaginativa, educativa e, acima de tudo, proporciona um prazer imenso a quem aprecia um bom livro.

“Bad spelling can be lethal. For example, the greedy Seriph of Al-Ybi was once cursed by a badly educated deity and for some days everything he touched turned to Glod, which happened to be the name of a small dwarf from a mountain community hundreds of miles away who found himself magically dragged to the kingdom and relentlessly duplicated. Some two thousand Glods later the spell wore off. These days, the people of Al-Ybi are renowned for being unusually short and bad tempered”.

Excerto retirado de «The wit and wisdom of the Discworld», de Stephen Briggs (Corgi Books)

Magia

Autor: Terry Pratchett

Editoras: Caminho, Saída de Emergência, Temas e Debates