A cor da magia

É difícil conceber alguém com uma imaginação tão fértil como Terry Pratchett, que da sua criatividade delirante conseguiu extrair esta pérola da literatura fantástica, a primeira obra de uma extensa saga passada num mirabolante mundo imaginário povoado de criaturas extraordinárias, o Discworld. As obras deste autor têm virtudes que as distinguem da literatura do género. Não são apenas mais um elemento indistinto num tipo de literatura que se tornou moda; possuem uma originalidade própria que as torna únicas e impossíveis de replicar. A sua  genial ironia estabelece uma analogia deliciosa com as vicissitudes da existência humana, caricaturadas num contexto onde a imaginação não conhece limites.

Nesta primeira obra da saga, um feiticeiro fracassado acompanha um turista imprevidente numa viagem por um mundo hostil. Twoflower, o primeiro e único indivíduo a quem passou pela cabeça a surpreendente ideia de visitar terras distantes num mundo onde esse conceito é desconhecido, diverte-se a tirar fotografias a dragões enquanto estes o tentam devorar. Rincewind, o desgraçado feiticeiro a quem coube a ingrata tarefa de o acompanhar, procura desesperadamente sobreviver às situações mais inconcebíveis e improváveis, enquanto serve de involuntário cicerone ao seu alegre e inconsequente companheiro. É uma estimulante massagem para as imaginações menos convencionais. Acima de tudo, é uma leitura extremamente enriquecedora para adultos e jovens, que entretém ao mesmo tempo que transmite conceitos importantes e valores fundamentais.

“Twoflower tried to explain. Rincewind tried to understand”.

Título: A cor da magia

Autor: Terry Pratchettcolor of magic

Editora: Gollancz

Ano: 1988

Nota: edição portuguesa da Temas e Debates

 

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O Grande Manuscrito

«O Grande Manuscrito», da autoria do escritor sérvio Zoran Zivkovic, vencedor do World Fantasy Award, é uma agradável e descontraída leitura que conjuga os géneros policial e fantástico. Acompanha as aventuras de um inspetor da polícia bibliófilo em busca de uma escritora desaparecida de um apartamento vazio e fechado por dentro. O mistério adensa-se à medida que a história avança, com uma seita secreta e implacável em perseguição da sua última obra, a qual supostamente concede a imortalidade ao seu primeiro leitor. Os livros são os principais protagonistas deste intrincado enredo em que os enigmas inexplicáveis se vão somando até à apoteose final, quando tudo é finalmente desvendado num desfecho agradavelmente inesperado.

Adverte-se o potencial leitor de que esta obra é a sequela de uma outra, «O Último Livro», facto que infelizmente não consta da sua capa. É aconselhável ler as obras sequencialmente, pois estão de tal forma interligadas que se começa pelo «Grande Manuscrito», vai perder acontecimentos relevantes para a história.

“Já tinha decidido prosseguir quando, de repente, tive um mau pressentimento. Não foi provocado por nada no exterior. Nada perturbava aquela escuridão impenetrável, nem chegava qualquer som aos meus ouvidos. Mas, mesmo assim, tive a clara sensação de que já não estava sozinho naquele pequeno lanço de escada. Parecia que alguém corria escada abaixo, junto ao corrimão do outro lado”.

manuscito

Título: O Grande Manuscrito

Autor: Zoran Zivkovic

Editora: Cavalo de Ferro

Ano: 2015

Terry Pratchett

Desta vez não se apresenta um livro, mas a série «Discworld», iniciada em 1983 e com 40 títulos publicados, da autoria do escritor inglês Terry Pratchett, recentemente falecido. Retrata um mundo imaginário em forma de disco sustentado por 4 elefantes por sua vez apoiados numa tartaruga gigante. Com um sentido de humor negro refinado, Terry Pratchet descreve as peripécia dos seus habitantes, bruxas, anões, trolls, feiticeiros, pessoas com queda para a desgraça e mesmo uma morte suis generis, todos eles parábolas do ser humano mais tradicional que habita este nosso mundo.

Não é necessário ler toda a série por ordem, pois cada livro pode ser lido independentemente como uma história autónoma, apesar de eventuais referências a acontecimentos passados. A oferta em português é escassa e dispersa, com edições da Caminho, da Saída de Emergência e da Temas e Debates. Não há razão para a escassez da oferta a não ser a insuficiência da procura, totalmente injustificada num contexto em que os livros de fantasia estão na moda, pois a qualidade da série Discworld ultrapassa em muito outras obras do mesmo género. É inteligente, divertida, imaginativa, educativa e, acima de tudo, proporciona um prazer imenso a quem aprecia um bom livro.

“Bad spelling can be lethal. For example, the greedy Seriph of Al-Ybi was once cursed by a badly educated deity and for some days everything he touched turned to Glod, which happened to be the name of a small dwarf from a mountain community hundreds of miles away who found himself magically dragged to the kingdom and relentlessly duplicated. Some two thousand Glods later the spell wore off. These days, the people of Al-Ybi are renowned for being unusually short and bad tempered”.

Excerto retirado de «The wit and wisdom of the Discworld», de Stephen Briggs (Corgi Books)

Magia

Autor: Terry Pratchett

Editoras: Caminho, Saída de Emergência, Temas e Debates